O projeto Novos Rumos na Execução Penal/RN promoveu o I Seminário para Formação de Educadores no Método APAC, nos dias 25 a 27 na cidade de Macau. O seminário, que ocorreu no Auditório do SESI e foi ministrado pelo advogado e teólogo Valdeci Antônio Ferreira, considerado hoje a maior autoridade no assunto no Brasil e também
é presidente executivo da Fraternidade Brasileira de Assistência aos condenados-FBAC, que é filiada a Prison Fellowship Internacional, órgão internacional ligado ao assunto.

Valdeci Ferreira se mostrou surpreso e parabenizou a população de Macau pela participação no evento, fato que, segundo ele, renova sua esperança e sua alegria porque dá a certeza de que nem tudo está perdido. Ele falou de sua trajetória de vida no método APAC, quando mergulhou naquela metodologia aos 21 anos, em Itaúna-MG, época na qual conheceu o trabalho desenvolvido pelo doutor Mário Ottoboni, pioneiro na implantação daquelas associações. Depois viajou o Brasil, indo até São José dos Campos-SP, Contagem-MG, Curitiba-PR.
Depois que assumiu a FBAC, Valdeci disse que passou de dez a doze anos dentro das prisões para vivenciar o ambiente e sentir quais as reais necessidades dos apenados. Isto lhe exigiu muitas renuncias, noites mal dormidas longe da família, fazendo com que ele abrisse mão de muitas coisas, como um bom emprego, bons cursos, concursos e até constituição de uma família, pois, segundo ele, um apóstolo tem que renunciar a tudo em prol de sua causa, de sua paixão.
Assim, Valdeci abraçou sua causa como o próprio Cristo abraçou sua cruz. “Senti que Deus me chamou para esse apostolado. Nesses anos todos fiz muitas descobertas, mas a maior de todas foi a de que de preso agente não entende nada. Mesmo eu tendo passado anos lá. Quem sabe de preso é quem cumpre pena”, relatou o palestrante.
Para Valdeci, quem conhece o problema é quem está preso, quem perdeu sua juventude em uma prisão e viu a vida “gritando” lá fora, sentindo saudade de sua família. Por isso pensa que quem vai dar a solução para que o método dê certo serão os próprios presos. Segundo o teólogo, o mundo convive com um dilema: os altos custos para a construção de presídios e manutenção de presos lá, isso acompanhado de altos índices de retorno ao crime e crescimento da violência.
Modelos propostos para tratar o problema do sistema carcerário

Então pensou-se no oposto: tratar o preso como lixo, sem as mínimas condições de alimentação e higiene. Assim, Valdeci visitou prisões em países como Moçambique, onde viu presos doentes, vivendo sem energia elétrica, água potável, comida racionada, etc, ou seja, presos tratados como animais para ver se, assim, pensariam duas vezes antes de cometerem algo para voltarem para lá. Resultado: a reincidência alcançou índices de 80 a 85%.
Outros creditavam a recuperação dos presos só à religião. Descobriu-se que religião sozinha não resolve, pois sob o manto da religião o preso se esconde para sobreviver dentro do presídio. Para o teólogo, a religião é importante, mas não resolve sozinha.
Outras soluções foram propostas ao longo dos anos, como colocar os presos para trabalhar forçosamente. Criaram-se assim as prisões privadas, como uma em Hong Kong visitada por Valdeci, na qual os presos trabalhavam 16 horas por dia. Também não resolveu o problema. Pensou-se então em endurecer a pena. Foi estipulada então os Presídios de Segurança Máxima. Outra tentativa fracassada.
A conclusão

Fonte: TJRN
27/05/2010 – “O preso é uma chaga social, vítima da falta de políticas públicas”
O advogado e teólogo mineiro Valdeci Antônio Ferreira criticou a situação do preso no Brasil e no mundo e fez uma avaliação do método apaqueano em funcionamento há alguns anos no país, durante palestra de abertura do I Seminário de Formação de Educadores Sociais no método APAC, na noite de terça-feira, 25, na cidade de Macau.
Situação do preso
Valdeci Ferreira contou o que percebeu nos presídios pelos quais passou como voluntário. Lá, o preso vale o que ele tem. Ou seja, se ele tem um carro, ele vale um carro. Se ele tem uma casa, ele vale uma casa. Se ele não tem nada, ele não vale nada. De tudo isso, ele constatou que o preso é um problema social e o voluntário deve ter noção ampla desse problema.
“O preso é uma chaga social. É certo que muitas vezes ele é vítima da desestrutura familiar, mas ele é muito mais vítima da falta de políticas públicas”, denunciou dizendo que tal afirmação pode ser constatada em uma pesquisa realizada recentemente que descobriu que 75% dos presos são analfabetos ou semi-analfabetos.
Portanto, diz o teólogo, para a tal industria, quanto menos se visitar o preso, melhor. Isto se configura uma caixa-preta, para não se ver o que se faz com o preso lá dentro. O melhor para ela é não tocar nessa ferida. Segundo ele, a sociedade, por sua vez, durante anos varreu o lixo incômodo para debaixo do tapete. Mal sabe ela que esse homem vai voltar e pior. É uma visão míope. “Prisão deve deixar de ser vista como espaço de vingança e sim como espaço de redenção para aqueles que cumprem penas”, alertou.
Avaliação do método

“Hoje a preocupação é com os presos do mundo inteiro, porque enquanto tiver alguém sofrendo atrás das grades, isso é nossa responsabilidade. A vida é muito efêmera. Quando vemos muitas pessoas sofrendo atrás das grades ficamos com a sensação de impotência. Porém, devemos ter em mente que uma vida é suficiente para fazer o bem para as pessoas”, concluiu em meio aos aplausos da plateia.
26/05/2010 – Autoridades presentes na abertura do I Seminário para Educadores no método APAC testemunham suas experiências
O Seminário teve início na noite do dia 25 com uma palestra de abertura proferida pelo mineiro Valdeci Ferreira, que tem 27 anos de experiência na área prisional. Ele elogiou a participação da população (o auditório estava lotado e a coordenação do evento contabilizou 150 inscrições para participação no seminário, todos voluntariados). O grupo Estrelas da Terra fez uma apresentação cultural para os presentes no evento.



Ao falar sobre a APAC, o desembargador Saraiva disse que naquela associação, o amor é gratuito, não é condicional. E o amor que a APAC prega é constante. “Sem o amor o método não cresce e não funciona . A APAC é a redenção da Execução Penal no Brasil, pois valoriza o homem”, falou entusiasmado.

O evento contou ainda com a participação da procuradora Valdira Câmara Torres Pinheiro Costa, representando o Ministério Público do RN.